quinta-feira, 3 de maio de 2012

História preservada

Há alguns dias atrás, minha amiga Kimie Oku mostrou-me o blog “Foto-história de Mirandópolis”.

Era um antigo desejo seu, de resgatar a história do município, através de fotos antigas. Hoje tem seu sonho realizado, com o apoio do amigo Osvaldo Resler, que abraçou a causa.

Que emoção ver as antigas ruas de terra batida, trafegadas por carroças, charretes e alguns poucos carros. Enfim, uma cidade bucólica do interior. Quantas lembranças!

Em minha memória afetiva, ficou registrado um fato, que nem sei se aconteceu realmente. Eu, pequenina, segurando fortemente a mão do meu pai, tentava atravessar a rua principal de Mirandópolis. Devia ser janeiro, a grande quantidade de barro era cortada por sulcos profundos, feitos por carroças.

Fomos a um restaurante, onde para mim é hoje as Casas Pernambucanas, e lá comi um arroz doce gelado. Na época, não tínhamos geladeira e achei o doce mais delicioso do mundo.

Teria sido verdade? Como disse Guimarães Rosa: “Contar é muito dificultoso, não pelos anos que já se passaram, mas pela astúcia que têm certas coisas passadas”.

Voltando às fotos, verdadeiro documento histórico é o retrato do primeiro carteiro da cidade, transportando a correspondência, em uma carriola de madeira. Essa foto de José Gabriel merece estar pendurada num lugar de honra no Correio da cidade.

Amigos de Mirandópolis, prestem-lhe essa merecida homenagem.

Entre as fotos que desfilaram diante dos meus olhos saudosos, revi casas de madeira hoje derrubadas, máquinas fechadas, lojas transformadas.

Reconheci a saudosa Casa Santa Glória da família de meus amigos de juventude, Calil e José Abdalla. Lembro-me que, no final da década de 70 ou início de 80, o visionário Calil quis transformar a loja da família, em um Supermercado, que já era moda nas grandes cidades.

Mas, aqui não deu certo, pois as pessoas estavam acostumadas a ser servidas pelo proprietário ou funcionários de confiança. Batiam um demorado papo com eles, e pediam para anotar a compra na caderneta. Era difícil libertar-se do velho costume; tentar encontrar sozinho o que necessitavam nas prateleiras, e depois pagar a conta num Caixa impessoal. Calil me pediu que escrevesse uma propaganda, falando sobre as vantagens do sistema de supermercados.Mas, para mim também era novidade, e não consegui escrever nada...

Para terminar esta pequena divagação, teço loas a todas as pessoas, que preservam coisas como fotos antigas, documentos, reportagens, objetos( como as delicadas porcelanas, enaltecidas em crônica por minha amiga Kimie).

Muitas vezes, essas pessoas não são entendidas. São chamadas de maníacas, juntadoras de cacarecos, apegadas ao passado. Mas, o que seria da História sem elas? Como seria difícil reconstruir o passado!

Parafraseando o grande poeta Fernando Pessoa, direi que

“Os guardadores de coisas chamadas inúteis, são mais sábias do que se julgam, guardam pequenos sonhos”.

Que, às vezes vêm à tona vendo uma foto antiga!



Mirandópolis 19 de abril de 2012.

Maria Nívea Pinto – Pesquisadora e Professora de História





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